sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Capítulo 1.2

E sinto um borbulho no peito. Rio. Não estrago e vou, sem olhar para trás. Quem sabe depois eu volto. E então quando já me distancio o suficiente pra que não consiga mais ver ele, olho pra trás.
Não o vejo, como pensei, mas vejo algo que me intriga. Ônibus, muitos ônibus, então entendo que estou em uma rodoviária. Mas pra onde ir? Não posso apenas vagar sem rumo.

-moça - disse a mulher com uma cara mais confusa que minha - você pode me dizer onde eu pego o ônibus pra Mogi da Cruzes?
- É o quarto ônibus da plataforma 2 - respondi sem ao menos pensar.
- obrigada.

O fato de eu saber daquilo só podia significar que eu ainda tinha acesso as minhas memórias, não se eu tentasse lembrar, era como olhar pelo canto do olho pra resposta vir.
Sinto algo vibrando no bolso e descubro um celular quando levo a mão até ele. Vejo na tela JLOP. "Que raios de nome é esse?" é o que não sai da minha cabeça enquanto atendo.

-alô
-já ta na hora de voltar pra casa né? - responde o homem do outro lado da linha.
-e quem é você pra me dizer quando voltar pra casa? - respondi num tom meio rude sem ter intenção.
-ah Linda, já faz já faz 4 meses e 2 dias que você foi embora e tudo que me deixou foi um bilhete escrito "volto 5", mas mao especificou, 5 horas, dias, meses... - mais um esperando uma resposta, quero desligar, pensar um pouco sozinha, mas talvez ele me ajuda.
-e vc vem esperado esse tempo todo Jay?
- Jay? Você não lembra nem meu nome mais, com essa mania de colocar só as iniciais nos contatos.

domingo, 12 de outubro de 2014

Capítulo 1.1

Ele levanta e me puxa com força, se afasta alguns passos e passa a me olhar: começa de cima, como se quisesse entender quem estava à sua frente. E, muito sinceramente, eu penso que também queria me entender.
Olho o nada ao redor, que no momento pra mim é tudo, e acho graça sem segurar o riso: tenho plena consciência do que é cada coisa que minha vista alcança, mas aí tento lembrar o porquê de eu saber tudo e: nada. Nome da cidade: nada. Do estado: nada. País: nada. Quem sou eu: nada. Essa, pelo menos, eu fico tranquila: acho que ninguém nunca soube quem é.

Sei que deveria estar preocupada e que isso deveria ser um instinto, mas esse desconhecido de mim me dá tranquilidade. Um pensamento de que talvez eu tenha passado muito tempo esperando por isso, esse desconhecido, me aquece o peito e me traz a sensação de que o que estou passando agora se assemelha ao que sente alguém que acaba de acordar de um sono muito profundo. Mas não lembro nem mesmo de ter dormido.

Vejo o cabelo do loiro balançando com o vento e puxo o meu à frente dos meus olhos e penso alto demais:

- Ruivo.
- Como? - o louro perguntou.
- Meu cabelo. Ruivo.
- É. 

Características. Essa palavra vem à minha cabeça e de repente eu sei que ela causa muita tristeza à muitos por aí. Olho minha mão, que me parece conhecida, e tem um anel preto lá. 

- Você quem me deu? - mostro o anel.
- Não. - ele está irritado - Desde que te conheço, você carrega esse anel e esse troço no seu pescoço. - ele enfia a mão na minha blusa e quando a puxa, ela está segurando um cordão longo que está preso em mim.

Os olhos azuis mudam quando encaram o cordão e depois encontram os meus. Meu estômago revira quando sinto que ele está com pena de mim. Não gosto disso. Puxo o cordão da mão dele e sinto que minha feição não é das melhores. Não quero mais aquele olhar sobre mim. E aí paro pra pensar como é que conheço e sinto todos esses sentimentos e não consigo chegar à conclusão, porque ele diz:

- Luna, eu...
- Luna?
- Luna... Eu não quis... Eu não sabia, desculpa.
- Nossa. Luna. - o nome brinca nos meus lábios - Qual é minha idade?
- Vinte. - respondeu revirando os olhos e eu penso que queria um espelho pra me ver e a palavra Características vem na minha cabeça de novo.

Sinto que ele quer continuar aquela conversa, mas não me interessa. A gente fica em silêncio e um, dois, três, quatro pensamentos diferentes começam a tomar conta da minha cabeça e de repente uma vontade sem fim de ir entender a vida toma conta de mim. Quero ir embora e achar o que está espalhado por aí. 

Eu olho pra cima e ele pra baixo. Cruzamos o olhar uma vez e eu olho pra um lado e ele para outro. Depois ele me olha e eu o olho. Ainda sinto pena no olhar dele, mas tem um cuidado tão grande ali que eu seria capaz de jurar que eu já fui muito protegida por esse cara. Meu corpo começa a reagir e me diz pra ir embora. E eu sei que tenho que ir mesmo. Só não sei pra onde.

- Você não lembra mesmo?
- Não.
- Nada? - e eu juro que ele tentou esconder um riso.
- Não. Eu tenho que ir. Volto quando souber seu nome.
- Meu nome é...
- Ei - interrompo - Não estraga o momento.
Ele ri.
- Você tinha falado disso, sempre falou. Engraçado.
- Isso o que?
- Você vai entender. Você sempre faz as coisas acontecerem.
- Mas eu quero...
- Ei. - ele diz - Não estraga o momento.

E sinto um borbulho no peito. Rio. Não estrago e vou, sem olhar para trás. Quem sabe depois eu volto. E então...

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Capítulo 1


Essa não é uma história feliz de fato, na verdade acho que a felicidade é uma coisa superficial, ou costumava achar, mas não lembro ao certo.
Mas espera, quem sou eu? Onde eu estou? E mais importante, quem é esse cara do meu lado com cara de quem ta esperando uma resposta...

-Okay, entendi então. Seu silêncio disse tudo.
-Mas eu não disse nada. Quem é você?
-Já age como se não me conhecesse. Quando você disse que me amava eu fiquei preso naquele momento, acreditando que nunca deixaria de ser verdade, mas hoje eu duvido que tenha sido verdade em algum momento. Hoje que você parte meu coração e aquele eu congelado no tempo se parte em pedaços.
-Calma, cara, não sei nem quem sou eu, não to tentando não te responder seja lá o tenha me perguntado. Que por sinal eu também não me lembro. Pode me falar onde estamos, quem sou eu, que dia é hoje e quem é você?
-É serio isso que você ta fazendo? - disse ele confuso. Ele, mesmo sentado, parecia ser alto, era loiro, com olhos azul piscina e com sobrancelhas grossas, magro demais. Usava uma camisa xadrez de flanela vermelha, calça jeans e um all-star.
-Claro que isso é sério, me ajuda aqui - respondi mais confusa ainda.