domingo, 12 de outubro de 2014

Capítulo 1.1

Ele levanta e me puxa com força, se afasta alguns passos e passa a me olhar: começa de cima, como se quisesse entender quem estava à sua frente. E, muito sinceramente, eu penso que também queria me entender.
Olho o nada ao redor, que no momento pra mim é tudo, e acho graça sem segurar o riso: tenho plena consciência do que é cada coisa que minha vista alcança, mas aí tento lembrar o porquê de eu saber tudo e: nada. Nome da cidade: nada. Do estado: nada. País: nada. Quem sou eu: nada. Essa, pelo menos, eu fico tranquila: acho que ninguém nunca soube quem é.

Sei que deveria estar preocupada e que isso deveria ser um instinto, mas esse desconhecido de mim me dá tranquilidade. Um pensamento de que talvez eu tenha passado muito tempo esperando por isso, esse desconhecido, me aquece o peito e me traz a sensação de que o que estou passando agora se assemelha ao que sente alguém que acaba de acordar de um sono muito profundo. Mas não lembro nem mesmo de ter dormido.

Vejo o cabelo do loiro balançando com o vento e puxo o meu à frente dos meus olhos e penso alto demais:

- Ruivo.
- Como? - o louro perguntou.
- Meu cabelo. Ruivo.
- É. 

Características. Essa palavra vem à minha cabeça e de repente eu sei que ela causa muita tristeza à muitos por aí. Olho minha mão, que me parece conhecida, e tem um anel preto lá. 

- Você quem me deu? - mostro o anel.
- Não. - ele está irritado - Desde que te conheço, você carrega esse anel e esse troço no seu pescoço. - ele enfia a mão na minha blusa e quando a puxa, ela está segurando um cordão longo que está preso em mim.

Os olhos azuis mudam quando encaram o cordão e depois encontram os meus. Meu estômago revira quando sinto que ele está com pena de mim. Não gosto disso. Puxo o cordão da mão dele e sinto que minha feição não é das melhores. Não quero mais aquele olhar sobre mim. E aí paro pra pensar como é que conheço e sinto todos esses sentimentos e não consigo chegar à conclusão, porque ele diz:

- Luna, eu...
- Luna?
- Luna... Eu não quis... Eu não sabia, desculpa.
- Nossa. Luna. - o nome brinca nos meus lábios - Qual é minha idade?
- Vinte. - respondeu revirando os olhos e eu penso que queria um espelho pra me ver e a palavra Características vem na minha cabeça de novo.

Sinto que ele quer continuar aquela conversa, mas não me interessa. A gente fica em silêncio e um, dois, três, quatro pensamentos diferentes começam a tomar conta da minha cabeça e de repente uma vontade sem fim de ir entender a vida toma conta de mim. Quero ir embora e achar o que está espalhado por aí. 

Eu olho pra cima e ele pra baixo. Cruzamos o olhar uma vez e eu olho pra um lado e ele para outro. Depois ele me olha e eu o olho. Ainda sinto pena no olhar dele, mas tem um cuidado tão grande ali que eu seria capaz de jurar que eu já fui muito protegida por esse cara. Meu corpo começa a reagir e me diz pra ir embora. E eu sei que tenho que ir mesmo. Só não sei pra onde.

- Você não lembra mesmo?
- Não.
- Nada? - e eu juro que ele tentou esconder um riso.
- Não. Eu tenho que ir. Volto quando souber seu nome.
- Meu nome é...
- Ei - interrompo - Não estraga o momento.
Ele ri.
- Você tinha falado disso, sempre falou. Engraçado.
- Isso o que?
- Você vai entender. Você sempre faz as coisas acontecerem.
- Mas eu quero...
- Ei. - ele diz - Não estraga o momento.

E sinto um borbulho no peito. Rio. Não estrago e vou, sem olhar para trás. Quem sabe depois eu volto. E então...

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