sábado, 1 de novembro de 2014

Capítulo 1.3

Tenho vontade de desligar, mas só suspiro. E logo lembro que alguém não gostava de suspiros profundos no telefone, mas não sei quem. Percebo que ele disse "casa" e pela primeira vez desde que abri os olhos e vi o sol, penso nessa palavra e no que ela significa.
Outra vez sinto um nó de sentimentos conhecidos mas sem origem e digo para mim mesma, em voz alta:

- Você vai ter que se acostumar até entender.

Imediatamente, o cara que não se chama Jay se revolta:

- Vou ter que me acostumar com isso, Linda?! Você é uma cretina por me dizer isso. Eu to te esperando há 4 meses pra você vir me dizer que eu vou ter que me acostumar com isso? Eu...
- Quanto tempo eu já esperei por você antes? - minha boca solta, sem eu ter chance para pensar e o interrompo com essa pergunta.

A ligação fica sem nenhum ruído por alguns instantes e quando o Cara Que Não Se Chama Jay volta a falar, tem a voz arrastada.

- Linda... Achei que você tivesse esquecido isso.
- Eu esqueci. Tudo.
- Não parece.
- Mas aconteceu. Até, Cara Que Não Se Chama Jay.

Olho a tela apagada do celular. Ameaço jogá-lo fora, mas não o faço. Apenas o coloco no bolso e ignoro as chamas do Cara Que Não Se Chama Jay, tendo a certeza de que logo elas vão parar.

Um grande fluxo de pessoas começa a passar por mim e eu calculo que deva ser meio dia. Num súbito silencio, me dou conta de que estou murmurando "casa" sem parar, como se estivesse tentando compreender e saborear a palavra. Os pensamentos que se iniciam à sua simples menção são infinitos, mas nenhum deles parece me trazer alguma informação mais precisa sobre mim. Ou onde ou o quê é minha casa. Sinto como se tivesse tendo acesso à uma enorme biblioteca, mas os livros que tenho interesse estão trancados numa sala restrita. A chave? Pendurada no teto. Onde é o teto? No momento não sei como saber e faço um esforço para afastar os pensamentos. Consigo.

Resolvo pegar o tal onibus para Mogi. Passo pela senhora que ajudei e subo depressa. Encontro alguns reais amassados e quando os entrego para o cobrador, ele sorri levemente para mim, como se não me visse há muito tempo. Não dou atenção porque lembro que o Cara Que Não Se Chama Jay disse sobre o bilhete deixado por mim: Volto 5. Eu ainda não sei o que é, mas quando imagino que deixei aquele bilhete para alguém, sinto uma vontade enorme de rir, mas rir com vontade, como um genio ri quando alguém não entende sua obra-prima. Mas eu não sou um genio. Afasto esses pensamentos também. Vou contando as paradas. 1... 2... 3... 4... 5... 10. Levanto e desço. Assim, rápido, sem pensar.

Outra explosão de sentimentos. Eles estão começando a irritar. Faço um outro esforço para esquecer os pensamentos. Parece que já venho treinando esquecê-los há muito tempo.

O lugar não é dos mais bonitos, mas sinto uma sensação boa no peito quando começo a caminhar em direção à uma rua torta e cheia de árvores. Minha cabeça começa a trabalhar tentando encontrar as lembranças que provavelmente tenho dali, mas não acha nada. Rio ao imaginar um neurônio levantando um cartaz que diz "Não tem nada aqui, garota. Mas vá em frente.". Eu vou. Tem uma casa muito velha e uma senhora ainda mais velha sentada na varanda pintada levemente de rosa. Ela levanta os olhos quando sente que passei pela casa e sorri forte para mim. Eu sorrio de volta. Vou passando a mão na mureta cheia de plantas, traçando o caminho torto que me leva, ao fim da rua, à uma casa amarela com uma porta vermelha e um jardim destruído. Pulo um pequeno pedaço de madeira suja e subo os três pequenos degraus, cruzo a varanda e dou um toque na porta. O toque mal ressoa e eu já empurro a maçaneta, ansiosa por algo que eu não sei o que é. Só sinto aquela sensação que se tem quando se entra em casas que já tiveram muitos risos soltos em seu interior. Entro e me viro para uma janela aberta, onde uma cortina leve brinca no vento. Um raio de sol encontra meu rosto e paro quando ele toca meu olho. Há algo ali que, mesmo que eu não saiba o que é, sei que desejei por um longo tempo.

Levanto a mão para tocá-lo.

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